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"A morte é um espelho que reflete as gesticulações vãs da vida. Toda esta matizada fusão de atos, omissões, arrependimentos e tentativas - obras e sobras - que é cada vida, encontra-se na morte, senão o sentido ou a explicação, o fim. Diante dela nossa vida se desenha e mobiliza. Antes de desmoronar e fundir-se ao nada, é esculpida e toma forma imutável: já não modificaremos, a não ser para desaparecer. Nossa morte ilumina a nossa vida. Se a morte carece de sentido, também a nossa vida não o teve. Por isso, quando alguém morre de morte violenta, costumamos dizer: "estava procurando". E é verdade, cada qual tem a morte que procura, a morte que constrói para si mesmo. Morte cristã ou morte de cachorro são maneiras de morrer que refletem maneiras de viver. Se a morte nos trai e morremos de uma maneira ruim, todos se lamentam: é preciso morrer como se viveu. A morte é instransferível, como a vida. Se não morremos como vivemos, é porque realmente não foi nossa a vida que vivemos: não nos pertencia, como não nos pertence, a má sorte que nos mata. Dize-me como morres e dir-te-ei quem és."
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In: PAZ, Octavio. O Labirinto da Solidão e post.scriptum. Tradução de Eliane Zagury. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976, pgs. 51/52.
"A morte é um espelho que reflete as gesticulações vãs da vida. Toda esta matizada fusão de atos, omissões, arrependimentos e tentativas - obras e sobras - que é cada vida, encontra-se na morte, senão o sentido ou a explicação, o fim. Diante dela nossa vida se desenha e mobiliza. Antes de desmoronar e fundir-se ao nada, é esculpida e toma forma imutável: já não modificaremos, a não ser para desaparecer. Nossa morte ilumina a nossa vida. Se a morte carece de sentido, também a nossa vida não o teve. Por isso, quando alguém morre de morte violenta, costumamos dizer: "estava procurando". E é verdade, cada qual tem a morte que procura, a morte que constrói para si mesmo. Morte cristã ou morte de cachorro são maneiras de morrer que refletem maneiras de viver. Se a morte nos trai e morremos de uma maneira ruim, todos se lamentam: é preciso morrer como se viveu. A morte é instransferível, como a vida. Se não morremos como vivemos, é porque realmente não foi nossa a vida que vivemos: não nos pertencia, como não nos pertence, a má sorte que nos mata. Dize-me como morres e dir-te-ei quem és."
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In: PAZ, Octavio. O Labirinto da Solidão e post.scriptum. Tradução de Eliane Zagury. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976, pgs. 51/52.


