sexta-feira, 23 de outubro de 2009
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Memórias Póstumas de Brás Cubas
"AO VERME QUE PRIMEIRO ROEU AS FRIAS CARNES DO MEU CADÁVER DEDICO COMO SAUDOSA LEMBRANÇA ESTAS MEMÓRIAS PÓSTUMAS"
In: ASSIS, Machado. Memórias Póstumas de Brás Cubas.
In: ASSIS, Machado. Memórias Póstumas de Brás Cubas.
terça-feira, 13 de outubro de 2009
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Lembranças tristes
(Em memória à primeira mulher do poeta)
Desde que entraste em minha casa,
Nunca pareceste importar-se com a pobreza,
Costurando sempre até soar a meia-noite,
O almoço sempre pronto por volta das doze.
Em nove de dez dias comíamos carne seca.
De leste a oeste, por dezoito anos,
Compartilhamos doçura e amargura
Contando que nosso amor duraria cem anos,
Como pensar que te irias em uma noite?
Ainda recordo quando o fim chegou,
Seguraste-me a mão, sem voz nem som.
Este meu corpo, muito embora esteja vivo,
Por fim se reunirá a ti no pó do túmulo.
Mei Yao-ch'en (1002-1060)
* In: Escadaria de Jade - Antologia de poesia chinesa: século XII a.C. - século XIII. Seleção, tradução e notas de A. B. Mendes Cadaxa. Rio de Janeiro: Graphia, 1998.
Desde que entraste em minha casa,
Nunca pareceste importar-se com a pobreza,
Costurando sempre até soar a meia-noite,
O almoço sempre pronto por volta das doze.
Em nove de dez dias comíamos carne seca.
De leste a oeste, por dezoito anos,
Compartilhamos doçura e amargura
Contando que nosso amor duraria cem anos,
Como pensar que te irias em uma noite?
Ainda recordo quando o fim chegou,
Seguraste-me a mão, sem voz nem som.
Este meu corpo, muito embora esteja vivo,
Por fim se reunirá a ti no pó do túmulo.
Mei Yao-ch'en (1002-1060)
* In: Escadaria de Jade - Antologia de poesia chinesa: século XII a.C. - século XIII. Seleção, tradução e notas de A. B. Mendes Cadaxa. Rio de Janeiro: Graphia, 1998.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
O estrangeiro
"Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames”. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem"
[...]
In: Camus, Albert. O estrangeiro.
[...]
In: Camus, Albert. O estrangeiro.
sábado, 3 de outubro de 2009
A morta

"Eu a amara perdidamente! Por que amamos? É realmente estranho ver no mundo apenas um ser, ter no espírito um único pensamento, no coração um único desejo e na boca um único nome: um nome que ascende aos lábios, e que dizemos, repetimos, murmuramos o tempo todo, por toda parte, como uma prece.
Não vou contar a nossa história. O amor só tem uma história, sempre a mesma. Encontrei-a e amei-a. Eis tudo. E vivi durante um ano na sua ternura, nos seus braços, nas suas carícias, no seu olhar, nos seus vestidos, na sua voz, envolvido, preso, acorrentado a tudo que vinha dela, de maneira tão absoluta que nem sabia mais se era dia ou noite, se estava morto ou vivo, na velha Terra ou em outro lugar qualquer.
E depois ela morreu. Como? Não sei, não sei mais.
Voltou toda molhada, numa noite de chuva, e, no dia seguinte, tossia. Tossiu durante cerca de uma semana e ficou de cama.
O que aconteceu? Não sei mais.
Médicos chegavam, receitavam, retiravam-se. Traziam remédios; uma mulher obrigava-a a tomá-los. Tinha as mãos quentes, a testa ardente e úmida, o olhar brilhante e triste. Falava-lhe, ela me respondia. O que dissemos um ao outro? Não sei mais. Esqueci tudo, tudo, tudo! Ela morreu, lembro-me muito bem do seu leve suspiro, tão fraco, o último. A enfermeira exclamou: "Ah! Compreendi, compreendi!""
[...]
In: MAUPASSANT, Guy de. O Horla e outras histórias. Tradução de José Thomaz Brum. Porto Alegre: L&PM, 1986, pgs 89/90.
Não vou contar a nossa história. O amor só tem uma história, sempre a mesma. Encontrei-a e amei-a. Eis tudo. E vivi durante um ano na sua ternura, nos seus braços, nas suas carícias, no seu olhar, nos seus vestidos, na sua voz, envolvido, preso, acorrentado a tudo que vinha dela, de maneira tão absoluta que nem sabia mais se era dia ou noite, se estava morto ou vivo, na velha Terra ou em outro lugar qualquer.
E depois ela morreu. Como? Não sei, não sei mais.
Voltou toda molhada, numa noite de chuva, e, no dia seguinte, tossia. Tossiu durante cerca de uma semana e ficou de cama.
O que aconteceu? Não sei mais.
Médicos chegavam, receitavam, retiravam-se. Traziam remédios; uma mulher obrigava-a a tomá-los. Tinha as mãos quentes, a testa ardente e úmida, o olhar brilhante e triste. Falava-lhe, ela me respondia. O que dissemos um ao outro? Não sei mais. Esqueci tudo, tudo, tudo! Ela morreu, lembro-me muito bem do seu leve suspiro, tão fraco, o último. A enfermeira exclamou: "Ah! Compreendi, compreendi!""
[...]
In: MAUPASSANT, Guy de. O Horla e outras histórias. Tradução de José Thomaz Brum. Porto Alegre: L&PM, 1986, pgs 89/90.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
A confissão de Lúcio
[...]
"Tínhamos chegado. Ricardo empurrou a porta brutalmente...
Em pé, ao fundo da casa, diante de uma janela, Marta folheava um livro...
A desventurada mal teve tempo para se voltar... Ricardo puxou de um revólver que trazia escondido no bolso do casaco e, antes que eu pudesse esboçar um gesto, fazer um movimento, desfechou-lho à queima-roupa...
Marta tombou inanimada no solo... Eu não arredara pe do limiar...
E então foi o mistério... o fantástico mistério da minha vida...
Ó assombro! ó quebranto! Quem jazia estiraçado junto da janela, não era Marta - não!
-, era o meu amigo, era Ricardo... E aos meus pés - sim aos meus pés! - caira o seu revólver ainda fumegante!...
Marta, essa desaparecera, evolara-se em silêncio, como se extingue uma chama...
Aterrado, soltei um grande grito - um grito estridente, despedaçador - e, possesso de medo, de olhos fora das órbitas e cabelos erguidos, precipitei-me numa carreira louca... por entre corredores e salões... por escadarias...
Mas os criados acudiram."
[...]
In: SÁ-CARNEIRO, Mário de. A confissão de Lúcio. (em pdf)
"Tínhamos chegado. Ricardo empurrou a porta brutalmente...
Em pé, ao fundo da casa, diante de uma janela, Marta folheava um livro...
A desventurada mal teve tempo para se voltar... Ricardo puxou de um revólver que trazia escondido no bolso do casaco e, antes que eu pudesse esboçar um gesto, fazer um movimento, desfechou-lho à queima-roupa...
Marta tombou inanimada no solo... Eu não arredara pe do limiar...
E então foi o mistério... o fantástico mistério da minha vida...
Ó assombro! ó quebranto! Quem jazia estiraçado junto da janela, não era Marta - não!
-, era o meu amigo, era Ricardo... E aos meus pés - sim aos meus pés! - caira o seu revólver ainda fumegante!...
Marta, essa desaparecera, evolara-se em silêncio, como se extingue uma chama...
Aterrado, soltei um grande grito - um grito estridente, despedaçador - e, possesso de medo, de olhos fora das órbitas e cabelos erguidos, precipitei-me numa carreira louca... por entre corredores e salões... por escadarias...
Mas os criados acudiram."
[...]
In: SÁ-CARNEIRO, Mário de. A confissão de Lúcio. (em pdf)
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Funeral Blues
Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.
Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.
Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.
É hora de apagar estrelas — são molestas —
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.
W. H. Auden
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.
Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.
Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.
É hora de apagar estrelas — são molestas —
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.
W. H. Auden
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